Experiências / Voltas ao Mundo

Crónicas de Viagens – China por Catarina Gonçalves

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Sempre desejei presenciar a grandiosidade da China. Descobrir o resultado da junção das tradições e da cultura milenar chinesa com a modernidade associada às grandes metrópoles! Tanto que sonhei que um dia embarquei mesmo nesta aventura e lá fui eu descobrir a China de mochila às costas, máquina na mão, paz no espírito e com o bichinho das viagens no coração!

Como sabia que a China tem muito para oferecer e que seria uma viagem bem longa, decidi fazer uma road trip pelo país! As cidades escolhidas para esta aventura foram: Pequim, o centro político, cultural e intelectual da China; Shangai, a mais cosmopolita cidade chinesa; Shenzhen, a atual fábrica do mundo; Hong Kong, a cidade cosmopolita mais ligada com o ocidente; e Macau, a cidade que faz qualquer português sentir-se em casa!

Assim que aterrei neste país, não levei muito tempo a perceber que na China é tudo gigantesco: avenidas, multidões, parques, monumentos, trânsito, edifícios, a rede de metro,… enfim tudo! E como há muito para contar dos sítios onde estive e das experiências que passei, vou optar por contar a minha experiência para já em Pequim.

Depois de quase 13 horas de voos chego a Pequim e percebi que o trânsito na China é uma aventura! Havendo cinco vias de trânsito, o transfere que me levou até ao centro da cidade usou uma sexta… a berma! Voltando sempre que necessário à via de trânsito dita normal quando avistava a polícia porque o lema no trânsito lá é: salve-se quem puder! Senti-me literalmente num filme daqueles de carros ilegais por ele ultrapassar pela direita, esquerda, ir à berma…valia tudo, foi engraçado!

Quando finalmente chego ao centro da cidade, faço jus à palavra “aventura” e já com um mapa decido ir a pé à tão famosa Cidade Proibida! Estava toda confiante que conseguiria mesmo estando tudo em chinês e eu não perceber nada, mas a certa altura percebo que só andei no caminho totalmente oposto ao que eu queria! Boa Catarina! Decidi então questionar às pessoas pelo local, mas os chineses literalmente fugiam de mim de “não é nada comigo” e as que não fugiam ficavam em pânico por não falarem inglês e não me conseguiam ajudar.

Bem, percebi que não sou tão boa a orientar-me em chinês e estava tramada. Porém, graças a isso fui dar ao Templo do Céu, um sítio lindo, onde aconteceu algo caricato e que me marcou nesta viagem!

Bastaram segundos para me maravilhar com o Templo e seu jardim (assim como todos os outros templos e jardins que visitei na China). Aí conheci a população mais idosa da cidade, pessoas que vão passear, praticar Tai Chi, jogar cartas ou outros jogos, conversar com os amigos, fotografar ou ouvir os pássaros simplesmente.

Depois de sentir toda a misticidade do Templo, estava na hora de tirar a foto “artística” à Catarina, que quem me conhece, sabe que eu adoro ver o mundo ao contrário, ver as belezas dos locais de uma forma que mais ninguém vê… a fazer o pino! É verdade, para além de deixar pegadas gosto de deixar “mãozadas” por onde passo. Aliando esse meu amor pela ginástica ao das viagens, estou a criar um álbum diferente (sempre gostei de ser diferente) com um pino, um pé na cabeça, etc. em frente aos sítios icónicos do Mundo para um dia olhar para trás e recordar-me por onde andei de cabeça para baixo!

Eu que não gosto de ser o centro das atenções, disse para me tirarem a foto a fazer o pino rápido quando tivesse pouca gente e ninguém a olhar. E assim foi. Só que em fração de segundos, assim que caio do pino, olho para os lados e estavam imensos chineses, TUDO a tirar-me imensas fotos! Juro que me assustei. E vejo uma fotografa com uma câmara fotográfica gigante daquelas XPTO, que não falava inglês, mas que gesticulou para eu repetir. “Mas de onde ela saiu? E esta gente toda de repente?!” – Pensei!

Como não me custava nada e adoro fazê-lo, fiz novamente. E em outra fração de segundos aparece outro fotografo profissional que me pede também para repetir. “Bolas! Mas eles caíram do céu ou quê?” – Perguntava eu para mim, estando eu ironicamente no Templo do Céu! Ou seria por isso que este se chama Templo do Céu?!

O engraçado é que eles continuaram a querer que eu repetisse mais e mais… e ainda mais conforme foram percebendo que eu conseguia fazer mais coisas. E com isso, fiz ali um autêntico treino de ginástica! Até se deitavam no chão para me tirarem fotos. Senti-me uma autentica estrela na China! eheh

Finalmente quando acharam que já chegava, tentaram comunicar comigo, só que eu não falava chinês nem eles inglês, ninguém se entendia. Até que a senhora chinesa disse:

– “Íman!”

“Íman?!” – questionei.

– “É! É! Íman!!”

“Ehh porreiro vai oferecer-me um Íman! Como é que ela sabe que eu adoro colecioná-los?” – pensei.

Mas depois de meia hora (juro) e porque chamaram um rapaz mais novo que falava mais ou menos inglês, percebi que não me ia dar nenhum íman. O que eles queriam era o… EMAIL! O que eu não ri depois de perceber! E lá dei. E no final, em gesto de agradecimento, o senhor fotógrafo ofereceu-me uma pulseira com um peixinho, que segundo eles dá sorte. Gostei imenso!

Até hoje não recebi as fotos porque provavelmente não perceberam o meu email, mas não me importei, esse momento marcou-me por ajudá-los e vê-los tão felizes a vibrar imenso comigo, foi muito gratificante. Até deu para rir porque eles chateavam-se com as pessoas que se ousavam pôr à frente da foto, gritavam tanto que até uns polícias apareceram para ver o que se passava.

Depois disso, à noite, visitei o mercado noturno, com os aperitivos mais peculiares que possam imaginar. Já no dia seguinte visitei a icónica Grande Muralha da China, uma das sete Maravilhas do Mundo… e que senhora experiência! Não só pela imensidade do local e tudo o que ele transmite pela história e passado infindo que tem, mas também para os glúteos de qualquer um com aquelas subidas tão íngremes! Já nas descidas tinha de ir quase sentada para não cair porque eu era menina para fazer um “strike” com aquela multidão de chineses.

Apesar do acentuado declive, do piso desnivelado e das multidões, a experiência de percorrer um pequeno troço que seja desta obra milenar vale todos os esforços. É gigantesca! A vista lá é algo fenomenal, vale mesmo todo o esforço físico que essa caminhada vai exigir.

Os outros dias em Pequim passei-os entre experiências gastronómicas, a prova de chás (onde até à data não apreciava chá e lá aprendi a gostar ao ponto de agora ser o que eu mais bebo), passando pela experiência de conhecer a meticulosidade e o cuidado da caligrafia chinesa, visualizando pessoas a fazer fantásticos trabalhos em diferentes suportes e materiais, e continuei a observar a diversidade e complexidade dos Templos e Parques.

Num resumo geral, foi uma experiência incrível e hoje penso que talvez perder-me naquele dia estava destinado, num país em que toda a diferença cultural já nos marca sendo uma autêntica aventura, acredito também ter marcado de alguma forma a China, não só com as minhas pegadas e “mãozadas”, como ela me marcou da mesma forma.

 

Texto e imagens: Catarina Gonçalves

(Vencedora da edição de junho)

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