Experiências / Voltas ao Mundo

Crónicas de Viagens – Japão por Sofia Santos

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Foi em Janeiro de 2018 que decidi que no final de Outubro desse ano, iria concretizar uma das minhas viagens de sonho. Fiz todo o planeamento, sítios a visitar, hotéis onde ficar, estudo de mapas de metro e de todos os meios de transporte. Foram onze dias inesquecíveis onde passei por Tóquio, Quioto, Hiroshima, Osaka, Miyajima e onde pude vislumbrar o maravilhoso Monte Fuji a partir de Hakone.

Várias horas e voo depois, pude ver a placa nas chegadas “Welcome to Japan”, a alegria e a adrenalina eram imensas, finalmente estava a viver o sonho. Apanhei o autocarro para o centro de Tóquio, onde começou a aventura. O sentimento de ser “largado” numa cidade desconhecida, com uma língua desconhecida, onde desde logo pude notar a azafama de movimento. Quando decidi ligar o GPS offline, depressa me apercebi que o meu telemóvel tinha deixado de funcionar, e por sua vez estava abandonada sem GPS, apenas com um mapa de papel onde não conseguia localizar nada. Foi aqui que me apaixonei pela cultura Japonesa, um senhor percebeu que necessitava de ajuda e no “seu Inglês” tentou me explicar como chegar ao hotel, no inicio da explicação tinha chegado o seu autocarro, mas ele optou por ajudar. Ali percebi que o Japão tinha me conquistado. Encontrei o hotel e parti à descoberta! Cada esquina era um mundo novo por descobrir.

Uma cidade em que cada ponto tem a sua magia e especificidade. Nos três dias que se seguiram explorei o que consegui, mas logo me apercebi que podia passar um mês ali e teria sempre o que explorar. Desde o mercado de peixe, ao mundo próprio de Akihabara, aos jardins impecavelmente bem tratados, à fabulosa estátua em homenagem a Hachiko (o cão que esperou anos pelo dono na estação, tendo esse morrido) ao cruzamento mais movimentado do mundo de Shybuya, senti que iria sempre encontrar algo novo a cada passo.

Um dos momentos fantásticos nesta viagem, foi quando numa noite decidi ir conhecer o cruzamento mais famoso do mundo à noite, pois é quando há mais movimento. Ao chegar a Shybuya pensei que algo só podia estar errado, pois fui engolida por uma multidão como nunca tínha visto. Comeceis a notar imensas pessoas mascaradas, quando me apercebi que era o dia de Halloween, tinha me esquecido de tal dia com a excitação da viagem.

Foi sem dúvida um dia das Bruxas diferente num local fantástico, os Japoneses são tão excêntricos como pensamos. Desde fatos detalhadamente feitos de personagens dos Transformers, a autocarros caracterizados e com concertos ao vivo. Foi um desafio atravessar a rua no cruzamento mais movimentado do mundo, onde a cada sinal verde os policias se apressavam a fazer barreiras para que as pessoas cumprissem os locais de passagem.

No dia seguinte segue-se Hakone, uma mágica cidade montanhosa situada no Parque Nacional Fuji-Hakone-Izu, conhecida pela vista para o Monte Fuji e o Hakone Jinja, um santuário com um Tori vermelho com vista para o lago Ashi. A cidade tem um percurso criado com vários transportes. O lago Ashi pode ser percorrido de barco, onde no porto oposto ao que se embarca, somos levados por teleférico para as fontes de enxofre em ebulição do vale Owakudani, onde podemos comer ovos negros cozidos nestas fontes.

 

Chegada a hora de ir para a cidade que mais curiosidade tinha… Quioto, a antiga capital do Japão. Quioto é tudo o que imaginamos e muito mais. A sua beleza e unicidade remete-nos para outra época. Vários são os templos, santuários, jardins, palácios e casas de madeira tradicionais, conjugados com um centro moderno. Em Quioto tive a oportunidade ver Gueixas e Maiko (aprendizes de Gueicha), explorar um mundo de fantasia e deliciarmo-nos com a fantástica gastronomia Japonesa, onde cada restaurante em que entrei surpreendia.

Se tivesse que escolher um local para viver o resto da minha vida seria sem dúvida Quioto. Não há palavras que possam descrever a beleza e mistério desta cidade, onde cada recanto nos apaixona mais do que o anterior, onde cada local nos faz querer ficar ali para sempre, como Arashiyama, um dos bairros de Quioto onde pude visitar a célebre floresta de Bamboo o templo Teryu-ji e me perdi nas suas ruas desejando ficar ali para todo o sempre.

A viagem continuava e tive de me despedir de Quioto, seguindo para Hiroshima, mas primeiramente Miyajima, a famosa ilha do Tori flutuante. Aqui aguardava-me a maior surpresa desta viagem.

Pouco sabia sobre Miyajima, uma coisa era certa, que iria ver o Tori explorar a ilha e voltar ao fim de cerca de duas horas, pois apenas tinha esse dia para explorar a ilha e Hiroshima, no dia seguinte tinha outros planos. Contudo, os meus olhos não queriam acreditar na beleza que estava diante deles, no azul lúcido da água, no verde e nas criaturinhas amigáveis que me aguardavam á saída do barco.

Miyajima merece um dia ou dois, se tiverem essa oportunidade. Acabei por ficar mais tempo, não tanto como o desejado pois a ilha é rica em templos e para amantes de animais, os pequenos veados que ali residem acabam por desviar constantemente a nossa atenção para as suas ternurices. Rica em cultura e beleza, a ilha “ onde Deus reside” foi a surpresa da viagem. E com muita pena, tive de voltar para Hiroshima, também rica em cultura e história.

Hiroshima é um local comovente e que toca no coração. Os rastos evidentes deixados pela bomba que aqui caia em 1945, lembram-nos dos momentos marcantes que ali ocorreram. Hiroshima tem uma certa magia ao por do sol, onde não podemos deixar de ficar felizes pela recuperação que se deu naquele pedaço do mundo.

No final da noite, decidi seguir algumas recomendações e comer o melhor Okonomiyaki de sempre, após uma hora e meia de espera, onde ainda hoje tenho gravado na memória os empregados em fila na chapa a despachar os pedidos que não paravam de chegar à pequena cozinha do restaurante.

No dia seguinte, com muita pena minha, parti para Osaka. Esta cidade é conhecida pela sua arquitectura moderna, vida noturna e pela comida de rua.

Depois de passar por todas os outros sítios, Osaka não tinha qualquer encanto. Senti que tinha deixado a “desilusão” para o fim, até à noite em que não sabia onde jantar, pois queria algo mais o que uma barraquinha de rua. Acabei por descobrir um restaurante minúsculo, que mais parecia uma casa particular aberta ao público, onde os outros três clientes eram locais.

A magia aconteceu nesse momento e Osaka deixou de ser marcada como a desilusão e passou a ser o local onde a magia acontece. Nesse restaurante, onde o balcão era corrido, todos os clientes, já familiarizados uns com os outros, rapidamente tentaram perceber no seu melhor inglês de onde era e que ali iria comer a melhor refeição Japonesa da minha viagem. A comida rapidamente foi chegando à nossa mesa, para que pudesse experimentar a verdadeira comida Japonesa, seguiram-se os copos de Sake para se brindar ao encontro de culturas aqui ali estava a acontecer.

O Japão é cultura, beleza, compaixão e apaixonante. Uma das viagens que mais me tocou e me ensinou.

Texto e imagens: Sofia Santos

(Vencedora da edição de maio)

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