Experiências / Voltas ao Mundo

Crónicas de Viagens – Jordânia por Ana Correia

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Roadtrip pela Jordânia

À descoberta de um dos povos mais hospitaleiros do mundo

Tínhamos acabado de deixar os 1500m de altitude do Vale do Kadisha, no Líbano. Arrumei os casacos quentes e as sapatilhas encharcadas pela inesperada neve de finais de abril que cobria a floresta dos últimos Cedros de Deus. Já de vestido e um sorriso imensurável, saúdo quem me carimba o passaporte na Jordânia – “Assalamu Malikum”. Tenho esta velha teimosia de aprender saudações locais quando viajo. Ficam sempre espantados ao ouvir estrangeiros falar a língua deles, e recebem-nos com uma grande gargalhada. Agradeço – “Shukran”. E, de Toyota Corola nas mãos, começamos a nossa aventura de cinco dias que nos levariam de norte a sul por mais de 400km.

Fora dos guias convencionais de viagens, encontramos As-Salt. Uma cidade edificada sobre montanhas, num contraste único e maravilhoso com a capital Amã. Diria mesmo, éramos os únicos cinco turistas que por ali andavam naquelas horas. Deambulo por entre a vida agitada de comerciantes locais que cobrem a Rua Hammam, e ao entrar na Praça Al Ein, senti que voltei atrás no tempo. Aqui se sentam a conversar, ou reúnem para rezar, ou se animam os corações de velhos cobertos pelo seu branco e vermelho keffiyeh num promissor duelo de dúvidas e certezas. Quem me dera compreender o que Manqala significa. E o que balbuciam enquanto jogam. Parecem felizes, e eu ainda mais por presenciar tamanha simplicidade. As crianças ao sair da escola, e vendo nas nossas roupas traços ocidentais, praticam o seu inglês – “Hello! What’s your name?”. Duas senhoras não alheias à nossa presença, chamam-nos do cimo de uma varanda. Bem, lá fizeram uns gestos, e nós fomos. Queriam saber de onde vínhamos e oferecer-nos um chá na sua casa. Os sorrisos dão lugar às palavras. Não falavam inglês, não falávamos árabe. Não importa, estávamos em casa. E, assim, partimos em direção a Amã para ver o pôr-do-sol, onde em tons bege se ergue sobre as colinas um quebra-cabeças de blocos de pedra irregulares.

Sou amante de roadtrips. A curiosidade é um grande motor para a alma, e o corpo dá espaço ao espontâneo. A única coisa que tomamos como certa é o nosso destino, a viagem é uma aventura. Exploramos o improvável. De madrugada fizemo-nos à estrada pela antiga e pitoresca King’s Highway a caminho da cidade perdida de Petra. O caminho tortuoso estende-se por paisagens desertas e áridas. Ao longe vê-se o Mar Morto. Parámos o carro. Os nossos olhares desafiam-se entre todos. A descida era íngreme e o sal ali acumulado ao longo de milhares de anos por evaporação formava pequenas estalagmites. É agora o local mais baixo da terra, ficando a 400m abaixo do nível do mar. Mas lá corremos em direção ao mar como se em causa estivesse o nosso título em campeonato. A manhã já ia tarde, e no meio da euforia até esquecemos a fome. Sem qualquer referência, parámos na berma da estrada onde vimos um pequeno espaço para almoçar. O estabelecimento pertencia a dois irmãos Sírios que tinham emigrado em busca do sonho deles. O nome da loja não o iria saber pronunciar, mas difícil esquecer a simpatia e felicidade de quem detém o poder de saber receber bem. O desconhecido tem sempre um jeito de nos aproximar.

Nada nos prepara para Petra. Ninguém nos diz que iremos passar meia hora num contra cruzado caminho formado por desfiladeiros. Que um jogo de luzes e sombras acutila o nosso estado de excitação ao longo do Siq. E que na última fenda irá surgir, aos poucos, a silhueta de um sonho há muito por realizar. E ei-la, Al Khazneh – O Tesouro –, a entrada cuidadosamente esculpida para uma cidade que fora em tempos esquecida. Para o Indiana Jones podia ser a Última Cruzada, para mim, era o início de uma viagem cheia de descobertas. Caminhámos, durante dois dias, sem rumo pelas montanhas e trilhos que se fazem sempre a subir. A chegada ao topo do Altar dos Sacrifícios compensa-nos com uma vista incrível sobre Petra. Beduínos que por ali vivem, servem chá e vendem pequenas rochas multicolores – a mesma textura rítmica que vemos nos padrões das Tumbas Reais. Acredito que muitos segredos ainda estarão por descobrir, afinal um tesouro nunca se revela no seu todo.

Partimos de Wadi Musa em direção ao deserto Wadi Rum. Chamam-lhe “Marte na Terra” pela sua coloração avermelhada e superfície rochosa. E, no meio da sua imensidão, esperava-nos um acampamento simples onde iríamos pernoitar debaixo de milhões de estrelas. Somos acolhidos por Raad, um jovem com um olhar mélico, nos seus vintes, e com um rosto já bastante queimado pelo sol. Saluda-nos com chá, e conta-nos orgulhoso como começou o seu negócio de família. A tenda dispunha apenas de uns bancos em almofada, tapetes bordados em tons vermelho e preto, e uma fogueira central em brasas onde se aquecia água e contavam histórias do deserto. Chamam-nos lá fora para vermos o último passo do ritual do Zarb – um delicioso prato da cultura beduína, confecionado durante três horas debaixo de areia. A agitação é grande ao ver sair uma estrutura em metal com 3 pratos ainda a fumegar, e apetite não faltava. A noite cerra-se ao som de música, palmas e dança. O nascer-do-sol faz-se em 4×4. Levantamos areia sobre o “deserto branco”, onde é possível subir ao grande arco que ali se encontra em resultado de milhões de anos de erosão. E, de volta ao “deserto vermelho”, exploramos alguns desfiladeiros. Subimos ao topo de grandes rochas para sentir o silêncio profundo que se abate sobre nós. Deslizamos por tórridas rampas de areia. E observamos com curiosidade cáfilas que se vão juntando em pequenos pontos de água.

Dali seguimos para o nosso último destino na Jordânia – Aqaba. A manhã é passada no Coral Garden, no Mar Vermelho, um dos melhores spots no mundo para fazer snorkelling. Para meu espanto, a água era gelada. O que esqueço rapidamente, pois encontro aqui uma floresta mágica e colorida com uma grande diversidade de corais e peixes. Já de coração cheio e mochila às costas, atravessamos a fronteira a pé, a caminho de Israel – para uma nova aventura por terras Palestinianas e Israelitas!

Texto e imagens: Ana Correia

(Vencedora Edição de abril)

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