Experiências / Voltas ao Mundo

Crónicas de Viagens – Sahara por Ricardo Gomes

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No meu Sahara

29 de Abril, 2011

Dizem que o destino das nossas vidas está traçado muito antes do que quer que seja. Mas também somos nós que traçamos o nosso rumo e que seguimos ou não os sonhos que queremos alcançar.

E eu sonhei muitas vezes com o deserto, com as imensas dunas do Sahara e toda a sua imensidão. Volto a casa com o sentimento de dever cumprido, o coração inundado de sensações únicas e esta alma sedenta de experiências verdadeiramente saciada.

Feitas as contas, foram quatro dias plenos em emoções fortes. A beleza estonteante do deserto fascinou-me é certo, admirar o nascer do sol no topo de uma duna gigante é de facto inesquecível. Mas volto ainda mais fascinado com as pessoas que aí vivem e com a simplicidade do seu estilo de vida.

Torno a casa diferente, a transbordar de emoção com tudo o que vivi e senti durante a minha primeira incursão pelo Sahara.

Tudo começou em Bechar, no Grande Erg Ocidental, após dez horas de autocarro a partir de Oran. Negociado o táxi, arrancámos em direcção a Taghit, uns meros cento e setenta quilómetros para quem vinha de tão longe. Ainda meios a dormir, chegámos ao nosso destino deviam ser umas cinco e meia da manhã. E pouco mais havia a fazer do que subir a duna enorme que domina o vilarejo e esperar pelo raiar da manhã.

E assim foi, eu e os meus companheiros de viagem, o Djalal e o Rachid, subimos essa fabulosa duna e não foi preciso esperar muito para que a luz ao fundo do manto de dunas chegasse. Assim que o contraste de cores se vai acentuando e a luminosidade vai aumentando, um mar de dunas vai-se revelando, num espectáculo de cores e formas digno de uma reportagem da National Geographic.

Não esperava tanto e não podia ter pedido mais, a primeira vez que vi o Sahara foi como o amor à primeira vista.

O sol foi subindo e nós fomos descendo até à vila que ia crescendo em vida e animação. Tomámos um pequeno-almoço rápido e fomos ter com o Barak, nosso anfitrião até ao final do dia seguinte. Este tipo restaura casas tradicionais à maneira antiga e nós vivemos em primeira mão pois habitámos com ele enquanto ele restaurava a própria casa. Quando disse às pessoas que queria fazer uma viagem bem “roots”, nunca imaginei que iria ser tão alucinante. Sentia-me como se estivesse a regressar a um lugar familiar, meio sonho, meio “dejá-vu”, viajava.

Explorámos o Ksour, um bairro tradicional outrora cheio de vida e histórias para contar, hoje abandonado mas repleto de túneis misteriosos e ruelas que despertam a imaginação. Tudo isto rodeado dum mar de dunas que se ia dourando e preparando para o final de tarde e palmeiras verdejantes a perder de vista.

Taghit é de facto de uma beleza extraordinária, um verdadeiro oásis à entrada do Grande Erg Ocidental, onde o grande Sahara toma a forma de dunas imensas que apaziguam a alma de qualquer preocupação. Quem aí entra, encontra um mundo imune ao stress, que desconhece a pressa e aprecia cada momento de coração aberto.

Presenteei os meus convivas dessa noite com vinho Espanhol, aguardente velha Portuguesa e um dos nossos folares de Páscoa que fizeram as delícias de todos. Ainda estávamos no inicio da viagem e já tanto tínhamos viajado, esta aventura só podia correr bem!

No dia seguinte seguimos com o Kada ver as gravuras rupestres ali plantadas no meio do nada. Animais de toda a espécie habitaram a região outrora, prova viva de que o planeta está em constante mutação.

Dormida a sesta, as forças retemperadas e fizemo-nos à estrada em direcção a Beni Abbes, outro oásis as portas do deserto. O alojamento surpreendeu todas as minhas expectativas, uma pousada da juventude em pleno Ksour, impecavelmente restaurada à maneira tradicional. A nossa curta estadia não podia ter sido mais animada pois começava no dia seguinte um festival cultural com direito a reconstituição de um casamento tradicional que culminou exactamente na nossa pousada.

Mas antes disso, é preciso mencionar o jantar da nossa chegada em pleno areal Sahariano. Aqui, impera a hospitalidade e a simplicidade de quem sabe receber. Frango assado nas brasas enterradas na areia, recheado com arroz, tomate e especiarias, do mais suculento que já provei. Chá verde caramelizado cheio de espuma e amendoins para terminar, à volta da fogueira crepitante, riamos e contávamos histórias, sob um céu estrelado que parecia só nosso.

O dia seguinte foi a verdadeira incursão pelo deserto com guia e dromedários, atravessando dunas enormes até ao oásis de Ouarouroute. À sombra da tamareira descansámos enquanto Mussa, o nosso guia, preparava um “pain de sable” que iríamos devorar com enlatados de atum e sardinha, bssahtek!

Após a sesta, regressamos a Beni Abbes e para mim esses foram uns oito quilómetros que me encheram as medidas. De máquina fotográfica ao tiracolo e pé descalço na areia percorri esse imenso deserto. Sentindo a areia quente entre os dedos, escalando dunas douradas em formas caprichosas. Linhas paralelas e pirâmides de areia, paisagem inóspita de uma beleza avassaladora, rendi-me e entreguei-me de corpo e alma. O dia terminou na piscina natural, banhos e mergulhos para os exploradores do deserto!

E como há viagens abençoadas, aquelas que com capricho e sorte do acaso nos presenteiam com a reconstituição de um casamento tradicional e ainda o convite do nosso guia para um verdadeiro casamento tradicional, era bom demais para acreditar.

A reconstituição foi uma verdadeira explosão de cores e sonoridades, batuques a gerir o ritmo da festa, cantos corânicos e tiros de pólvora seca. O casamento de verdade foi uma verdadeira experiencia cultural e vesti-me a preceito para tamanha ocasião. E apesar de ser o único não Argelino e muito seguramente o único não muçulmano, não me senti estrangeiro nem deslocado, senti sim que estava no sitio certo e na altura certa.

O último dia da nossa viagem chegou e com ele veio também o “vent de sable” que nos levou de volta a Oran. E levei um pouco do Sahara comigo, com a memória preenchida de belas recordações e o coração inundado em emoções.

Fecho os olhos e começo a sonhar que ainda lá estou, viajante sonhador é o que eu sou.

Texto e imagens: Ricardo Gomes

(Vencedor Edição de abril)

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