Experiências / Voltas ao Mundo

Crónicas de Viagens – Turquia por Isabel Cortez

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Depois de uma experiência inesquecível de estudo em Roma, aqueles a quem chamei de família estavam agora espalhados pelos quatros cantos do mundo. O primeiro ano pós erasmus foi passado a sonhar com os gelados da Giolitti, os passeios em Trastevere e os sonhos atirados à Fontana di Trevi, e claro está, a ansiar pelo reencontro do nossa família Tiburtina (vivíamos na parte de trás de uma oficina de motas na comprida Via Tiburtina em Roma).

Estava decidido, todos os verões teríamos de nos encontrar nos diferentes países, um por ano. Não se veio a concretizar, mas a amizade perdura até hoje e já lá vão 8 anos.

A primeira viagem foi à Turquia. Trabalhei o ano todo para este reencontro e digo-vos já, valeu a pena todo o esforço. Parti de Portugal em direção à Bélgica para me encontrar com a Lisa, e da Bélgica voamos para Istambul. Que cidade! Aqui encontramo-nos com o Alper da Turquia e com a Paulina da Polónia. Estávamos novamente juntos, que felicidade.

Passamos três dias em Istambul, o suficiente para conhecer os principais pontos da cidade. Passeamos pela parte antiga da cidade, começando pela Galata tower. Descemos até ao Bósforo, atravessamos a ponte carregada de pescadores, e já do outro lado comemos as famosas sandes de peixe grelhado, apanhado diretamente do estreito de Golden Horn. Daqui subimos até ao Grand Bazaar, onde negociamos especiarias, lenços e sabonetes, conhecemos a Blue Mosque, a Hagia Sofia e o Topkapi Palace.

A cidade é enorme (15 milhões de habitantes) e maravilhosa. Tão cheia de vida, de pessoas e de cheiros. Definitivamente diferente daquilo a que estava habituada.

Partimos de Istambul em direção a Izmir para nos encontrarmos com o Mehmet e o Ozgur.

Ficamos alojados em casa do Mehmet onde fomos maravilhosamente bem recebidos. Os Turcos e os Portugueses são a meu ver muito parecidos em vários aspetos, mas são particularmente bons a receber. Ficamos logo a sentir-nos em casa. Apesar de não conseguirmos comunicar, a mãe do Mehmet alimentou-nos como se fôssemos seus filhos. Um Merhaba (Olá) Benim adım Isabel (O meu nome é Isabel) e Çok Teşekkürler (Muito obrigada) foram o suficiente para a conquistar.

Estivemos dois dias em Izmir. Deu para conhecer o Kemeraltı Çarşısı (O grand bazaar de Izmir), e a famosa Torre do Relógio. O resto do tempo foi passado a comer sementes de abóbora junto à baía, um dos preferidos snacks para toda e qualquer hora do dia. Foi neste ponto que começou a verdadeira Road Trip. Nos próximos 10 dias iríamos percorrer a costa desde Izmir até à Antalya. De malas no carro partimos à descoberta desse belo país que é a Turquia. Parámos em antigas ruínas, praias paradisíacas e locais saídos de filmes fantásticos.

A primeira paragem foi Ephesus, a antiga cidade grega, património mundial da Unesco. As ruínas mantêm parcialmente intacta a antiga biblioteca de Celso e um imponente teatro, que tinha na altura capacidade para 25.000 pessoas. As estradas que levam a estes dois monumentos conservam colunas de mármore das mais variadas cores, e parcelas de chão ornamentados com mosaicos maravilhosos. De destacar a quantidade de gatos que nos surpreendem a cada esquina. Uns refastelados ao sol, outros em busca de festinhas, outros na sua vida de gato.

Isto é certo na Turquia. Os gatos ocupam, a par das pessoas, os espaços da cidade. É tão deles como dos locais, e para quem é uma “cat lady” como eu não há melhor!

Seguimos para Şirince, uma pequena aldeia nas montanhas onde comi uns maravilhosos figos e provei o vinho local. A aldeia é bastante turística mas é uma paragem obrigatória para quem vai a Ephesus.

Dirigíamo-nos agora para a cidade de Dinizli para visitar Pamukkale (castelo de algodão). Para quem o visita pela primeira vez, este local surpreende-nos logo pela forma e cor. Pamukkale é um complexo termal conhecido pelas suas águas de origem calcária, que formaram ao longo dos séculos, cascatas e baías pela encosta abaixo. A sua cor branca e piscinas naturais azul turqueza contrastam com a paisagem verde e castanha, criando quase um pedaço de céu na terra.

Os dias passavam com a leveza de tempos felizes. Nadamos em praias paradisíacas, percorremos estradas de montanha sem fim, acampamos ao relento, conhecemos pessoas e locais de cortar a respiração.

Já perto do nosso destino, a cidade de Antalya, passamos por Saklikent Gorge, a cidade escondida. Saklikent é um dos desfiladeiros mais profundos do mundo, com cerca de 4km de caminho para percorrer. O percurso é feito tanto em água como em pedra e a cada esquina somos surpreendidos por formas escavadas que a água fez ao longo do tempo e pela imponência das montanhas que nos engolem. Sem dúvida um local onde quero voltar.

Chegados a Antalya tivemos oportunidade de descansar um pouco de toda a viagem que fizemos até então. Ficamos desta vez em casa do Alper onde mais uma vez fomos recebidos como filhos da terra. É de destacar os pequenos-almoços que nos preparavam em todos os locais por onde passámos. O conhecido Turkish Breakfast inclui tudo o que possam imaginar: café, chá, sumo, yougurt, fruta, ovos, compotas, tomate, pepino, azeitonas, bagles, etc. É uma refeição tão ou mais importante que o jantar, um momento familiar de partilha.

Em Antália passeamos pela parte antiga da cidade. É digna de um cenário de Game of Thrones com as suas ruelas estreitas, as casas de pedra, a marina ao fundo da encosta, as mulheres sentadas à porta de casa, as crianças a brincar na rua. Antália uma cidade plantada à beira mar onde os dias correm despreocupados.

Em tom de despedida, a nossa última aventura foi um dia nas montanhas para fazer rafting. Na minha cabeça, o rafting que iríamos fazer era algo ‘soft’, com águas pouco apressadas para chegar ao destino, mas felizmente as minhas expectativas foram ultrapassadas. Chegados ao ponto de partida equipamo-nos com todo o material de segurança e entramos no barco com o nosso guia. Não me recordo do nome mas lembro-me que era do Azerbeijão. Ele diz-nos “Se alguém cair à água não stressem que eu vou vos buscar”. Nível de adrenalina no máximo. O percurso durou 15 minutos e quem caiu à água foi o nosso guia. Foi uma aventura perfeita para terminar a viagem.

Destes dias ficaram histórias que ainda hoje contamos com a mesma felicidade e novidade. A sandália que caiu no canal em Istambul, a primeira vez que provamos o café turco, o cd que ouvimos a viagem toda, as perseguições na montanha, a minha obsessão com os gatos, etc.

Regressei ao meu país feliz mas deixei parte do coração espalhado pela Turquia para lá voltar assim que puder.

Texto e imagens: Isabel Cortez

(Vencedora da edição de junho)

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