Experiências / Voltas ao Mundo

Crónicas de Viagens – Brasil por Paulo Figueiredo

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Aos 40… o Rio de Janeiro!!!

Faz hoje precisamente um ano que partimos em busca do sonho.

O sonho vem de longe. Das telenovelas da Globo, seguramente.

Copacabana, Ipanema, Bairro da Tijuca, água de côco… São dezenas as expressões que nos acompanharam ao longo dos anos e que a mim sempre me fascinaram. Ao ponto de “decidir” que aos 40 é que era. E foi. Contra todas as opiniões, quase todas muito bem fundamentadas, lá partimos à descoberta da Cidade Maravilhosa. Fomos os quatro. Eu e a minha esposa (ambos com 40) e os meus filhos (ele com 12 e ela com oito). “Uma loucura, aquilo é um perigo”, foi a expressão que mais ouvimos.

Conscientes de tudo e sem sabermos de nada, partimos. Para trás ficavam semanas de grande ansiedade provocada pela violência de lá e pelas fortes enxurradas que poucos dias antes mataram algumas dezenas de pessoas. Na mala seguia roupa leve, alguns reais e muita esperança numa semana de sonho.

A viagem, via Madrid, foi longa mas amenizada pela excitação e pelo facto dos aviões estarem apetrechados com uma grande panóplia de divertimentos para os mais pequenos.

Sete ou oito horas depois chegamos. Era oficial: estávamos no Rio de Janeiro. Não havia como voltar atrás pelo que era “bola prá frente”…

O primeiro medo foi apanhar o táxi para o hotel. Tudo tranquilo. Contratamos o serviço no aeroporto e à saída já estavam à nossa espera. Uma viagem tranquila, com um “bate papo muito legal” e eis que estávamos no Hotel Mirador, em plena zona de Copacabana. Era noite e o cansaço não nos permitiu mais do que comer uma sopa e uma pizza no hotel.

“Amanhã é que vai ser…”. Foi com esta promessa que aterramos… nos lençóis.

Com o jet-lag ativado, a noite foi “rápida”. Às sete da manhã tomávamos o pequeno-almoço e às oito chegávamos à Praia de Copacabana. O plano estava traçado e só era preciso pô-lo em prática. O Posto de Turismo ainda estava fechado e nós não enganávamos: éramos turistas. O Sérgio, um verdadeiro anjo caído do céu, percebeu e logo mostrou ao que ia. “400 reais e levo-vos a conhecer o verdadeiro Rio de Janeiro. Serei o vosso guia todo o dia”. Confesso que o impacto é forte e tolhe-nos o discernimento mas, como em tudo na vida, a sorte protege os audazes. E por 350 reais lá fomos os quatro à descoberta do Rio, numa viatura só para nós e com ar condicionado. O Sérgio, natural do Recife mas no Rio há mais de 30 anos, é a personagem que entra nos sonhos de qualquer turista. Simples, humilde, sério e um profundo conhecedor do Rio, dos seus encantos e manhas.

O dia começou, como não poderia deixar de ser, no Cristo Redentor. A fila já ia longa mas o Sérgio lá deu “um jeitinho” para que, rapidamente, o Corcovado deixasse de ser uma simples miragem. A viagem de “bonde” é indescritível assim como a vista que se tem lá de cima. Estávamos em êxtase e ainda agora tinha começado.

Com o Sérgio à nossa espera lá tivemos que descer, a muito custo diga-se, e partir para outra. E aí já era por conta do Sérgio. E eis que o “outro” Rio nos é apresentado. As escadas de Selarón, no Bairro de Santa Teresa, foram uma descoberta que nos encantou, assim como o resto do Bairro. A foto tirada no “bonde/elétrico” só foi possível porque o Sérgio é mesmo “boa gente”. O sambódromo veio a seguir. A minha filha alugou roupa e sambou como se estivesse rodeada de milhares de pessoas. Incrível!! A Catedral de S. Sebastião, o Pão de Açúcar e por fim o regresso a Copacabana. Acho que lhe disse algumas vezes ao longo do dia mas nunca é demais: Obrigado Sérgio!!

Um fim de tarde na praia de Copacabana com uma água de côco (uma pequena deceção) numa mão e um bolinho de bacalhau na outra nem sabe o bem que lhe fazia…

De regresso à realidade e sem “piloto” viramos verdadeiros cariocas. De “short” e chinelos vivemos como se fossemos um deles. E que privilégio foi.

Os restaurantes são ótimos, as lanchonetes uma delícia e os tudo incluído são uma perdição. Alguns de nós não comem carne mas isso não foi problema em nenhum momento.

Antes de ir embora o Sérgio passou-nos alguns contactos para o caso de querermos conhecer algo fora da cidade. As excursões não são baratas mas as oportunidades não se podem perder. Fomos a Angra dos Reis e a Petrópolis, dois destinos que, mais uma vez, faziam parte da memória trazida das telenovelas.

Angra dos Reis é tudo aquilo que sempre imaginamos: a ilha das grandes paixões onde a água parece retirada de um destino exótico. Mergulhar junto aos grandes cardumes de peixes foi memorável, tal como visitar cada uma das pequenas praias semi-desertas onde o barco atraca. Foi um dia, tal como os outros, para recordar… sempre.

Petrópolis foi uma descoberta. Enfiada nas montanhas, a cidade ficou conhecida por ser o refúgio de D. Pedro II e da família imperial. Destaque para o Palácio Imperial que mostra o tipo de vida que a família real levava, para o Palácio de Cristal (uma réplica do do Porto e de Paris), para a Casa de Santos Drumond e para a Rua Teresa, a rua onde tudo se compra e tudo se vende.

De regresso ao Rio para dizer que nada do que possa dizer ou até mostrar consegue ficar perto da experiência de viver o dia-a-dia do carioca. Feitas as excursões, os restantes dias serviram para conhecer o Rio e as suas gentes. As que trabalham nas lanchonetes, as que percorrem quilómetros de areia para vender tudo e mais alguma coisa, os taxistas que têm sempre uma palavra amiga, os “donos” da praia que te alugam cadeiras e te oferecem a senha do wi-fi…

As chuvadas que nas semanas anteriores provocaram o caos foram substituídas por um céu limpo e um sol radioso. As temperaturas faziam invejar o melhor dos nossos verões. As noites pediam um passeio no calçadão e nós lá fizemos a vontade. Duas ou três vezes. Saímos do hotel conscientes do local para onde íamos mas cedo percebíamos que eramos apenas mais quatro no meio de milhões. O calçadão de Copacabana é icónico e nós percebemos porquê: porque lá no meio, a andar ou a correr, de chinelo ou sapatilhas, somos todos iguais. Não há ricos, não há pobres. Há pessoas que desfrutam de algo único.

De dia, o panorama não é diferente. Na praia tens direito a tudo. Ao chopp, ao queijo na brasa, às ostras, ao camarão grelhado, à quentinha (refeição embalada com arroz, feijão preto, farofa e carne ou peixe), aos picolés, a chapéus, a biquínis, a protetores… Basta estalar o dedo e zás…

Conseguia, sem dúvida, escrever e descrever centenas de outros momentos que vivemos ao longo de uma simples semana. Mas o texto já vai longo e no limite. Resta-me agradecer aos deuses que estiveram connosco ao longo destes mais de 10.000 minutos. Nenhum guião seria tão perfeito quanto foram estes momentos.

Uma dica: vale a pena… verdadeiramente.

 

Texto e imagens: Paulo Figueiredo 

(Vencedor da edição de abril)

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